Industrialização à brasileira: Entregar para não desintegrar?

Industrialização à brasileira: Entregar para não desintegrar?

Akio Morita, presidente da Sony no final do século passado, afirmou certa vez que só a atividade industrial possui a máxima capacidade para produzir riquezas e agregar valor a matérias-primas. Essa constatação não é nova – na verdade, é um fato observado desde a eclosão da Revolução Industrial. Em maior ou menor grau, parte dessa riqueza é distribuída e acaba por promover a evolução social, cultural, técnica e política da população envolvida nessa atividade. Elites com mentalidade feudal, incapazes de acompanhar a evolução mundial, sabotam o quanto podem o processo de industrialização, já que elas o consideram um fator potencial de desestabilização do poder histórico de que desfrutam.

Países mais novos ou que se voltaram para o Ocidente mais tarde do que o Brasil, como os EUA, Japão e Coréia, só para citar os mais relevantes, lograram avançar de forma muito mais rápida do que nós, tanto na área institucional como industrial, promovendo assim um forte desenvolvimento econômico que proporcionou altos níveis de bem-estar a sua população. Por que será que não evoluímos nesse mesmo ritmo?

O processo de industrialização no Brasil só se tornou efetivo a partir da implantação da Companhia Siderúrgica Nacional, em meados da década de 1940, mais de 120 anos depois da independência política do país. Iniciativas anteriores para implantação da indústria de base e da grande siderurgia no país – como a Real Fábrica de Ferro de Ipanema, os empreendimentos de Mauá, a exploração das minas de Itabira proposta por Percival Farquhar, a viabilização do processo de redução direta de minério de ferro defendida por Monteiro Lobato – não vingaram, mais por problemas políticos do que técnicos. No caso de Mauá e Farquhar ficou patente o receio das oligarquias locais terem seu poder desafiado pelas alterações econômicas e sociais decorrentes do processo de industrialização. Mas o fato é que o fim da hegemonia da cafeicultura a partir da crise de 1929 e sua substituição por culturas que não exigiam tanta mão de obra resultaram num êxodo rural que urbanizou o país e forçou uma maior participação da indústria na economia.

A partir de 1945 a participação da indústria na economia foi crescente, tendo atingido seu ápice em 1985, ano em que o modelo desenvolvimentista brasileiro já se encontrava em plena crise. Não admira: a industrialização brasileira foi promovida por meio de medidas pouco saudáveis, como um protecionismo radical e subsídios governamentais. A partir de 1990, com a progressiva adesão do país à economia de mercado, os problemas de competitividade industriais ficaram aparentes e, até hoje, suas causas não foram adequadamente combatidas.

Além disso, industrialização brasileira apresenta alguns aspectos que seriam curiosos se não fossem alarmantes. Ao contrário de outros países, como a Coréia, nós não fomos capazes de criar nossas próprias montadoras automotivas. Outro fato estranho foi o virtual sucateamento da nossa já incipiente rede ferroviária e da navegação de cabotagem, uma proeza inédita num país de dimensões continentais como o nosso. Um belo “tiro no pé”, já que nosso transporte de carga geral se faz quase integralmente por rodovia, aumentando os custos e reduzindo nossa competitividade. Será que nossa competência é tão baixa assim e que nos tenha levado a nos afastar desses empreendimentos que requerem altos níveis de excelência em gestão, disciplina e tecnologia? Ou seria uma mera questão de inapetência pelo esforço gigantesco e prolongado que é necessário para sua implantação?

A recente supervalorização das cotações de produtos agrícolas, particularmente a soja, alavancada pela demanda chinesa, ressuscitou o fascínio de nossas elites pelo canto de sereia do dinheiro fácil proveniente das exportações de matérias primas. A Argentina passou pela mesma situação no início do século XX. Na época, era um país com nível europeu de desenvolvimento, mas a queda posterior das cotações de suas exportações – basicamente carne, trigo e lã – solapou sua economia em poucas décadas. Será que nada temos a aprender com o país vizinho?

Outra consequência do nosso desinteresse pela indústria é a desnacionalização de nosso parque industrial. Por várias vezes o governo anunciou sua disposição para criar uma megassiderúrgica brasileira, uma iniciativa louvável quando se considera a precária consolidação desse setor em todo o mundo. Apesar de muita movimentação nos bastidores, nada se conseguiu nesse sentido. Agora, várias de nossas maiores usinas siderúrgicas já estão sob controle estrangeiro. Mas, afinal, será que a solução não é essa mesmo? Salvar a indústria brasileira do anti-industrialismo nacional?

Antonio Gorni
Antonio Gorni
Engenheiro de Materiais pela Universidade Federal de São Carlos (1981); Mestre em Engenharia Metalúrgica pela Escola Politécnica da USP (1990); Doutor em Engenharia Mecânica pela Universidade Estadual de Campinas (2001); Especialista em Laminação a Quente. Autor de mais de 200 trabalhos técnicos nas áreas de laminação a quente, desenvolvimento de produtos planos de aço, simulação matemática, tratamento térmico e aciaria

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