O mercado no comportamento do engenheiro

O mercado no comportamento do engenheiro

Sintomático. Essa é a palavra que pode explicar o fato de os cursos de pós-graduação receberem uma procura cada vez maior de Engenheiros. Em tempos de retração econômica, especializações e mestrados são as principais opções para quem busca se diferenciar no mercado de trabalho.

Para que se tenha uma ideia desse fato, a procura de candidatos pelo Programa de Pós-Graduação em Engenharia Metalúrgica (PPGEM) da UFMG, quando comparada entre os anos de 2014 e 2015, registrou um crescimento de 25,4% para o Mestrado e de 56,3% para o Doutorado.

No evento do Grupo Aprenda em Março deste ano, o II Seminário de Processos de Tratamento Térmico, foi possível identificar que as empresas estão mais atentas à necessidade de se investir em conhecimento e em inovação, principalmente para o setor dependente do mercado interno.

O Seminário discutiu tecnologias e apresentou trabalhos na área da transformação, configurando uma clara tendência da indústria em se aperfeiçoar. Aliado a isso, com o desaquecimento do consumo, a diminuição na produção industrial é uma realidade e o foco tem sido a redução de custos. Dentre as inúmeras consequências dessa conjectura, a diminuição de postos de trabalho e a iniciativa das empresas na busca da geração de novas tecnologias são fatores que influenciam o comportamento do profissional quando o assunto está relacionado ao investimento na sua qualificação.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que o ano de 2015 será de recessão de 1,2% no PIB (Produto Interno Bruto), influenciada pela retração de 3,4% no PIB industrial. Com relação à indústria da transformação, estima-se uma queda de 4,4%. Os setores da construção civil e de serviços industriais de utilidade pública também possuem previsão de quedas. A exceção fica por conta da indústria extrativa que, alavancada pelos petróleo, gás e mineração, deve crescer 2,3% neste ano.

Segundo a Associação de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ), a queda na competitividade da indústria da transformação brasileira, refletindo no baixo crescimento do PIB e na falta de investimentos, decorre principalmente do fato de que produzir no Brasil custa, em média, 30 a 40% a mais que nos principais países concorrentes. Considera, ainda, que a crise foi fabricada internamente e que, por esse motivo, só depende do Brasil sair dela.

“A iniciativa das empresas na busca de novas tecnologias são fatores que influenciam o comportamento do profissional quando o assunto está relacionado ao investimento”

Carlos Pastoriza, presidente da ABIMAQ, declarou que essa autodependência representa um fator positivo. De maneira mais direta, a CNI acredita que a solução é o crescimento via exportação e o destravamento de projetos de infraestrutura, mas as dificuldades são tremendas.

Na contramão, empresas com carteira sólida de exportação têm registrado um forte crescimento em razão da alta do dólar. Contratações e regime completo de trabalho têm sido a tônica dessas companhias. Mas, em geral, nas demais empresas o número de colaboradores tem sido reduzido, salvo as áreas de melhoria contínua, as quais chegam até a fazer contratações. No entanto, é importante que os projetos de melhoria contínua, tipicamente gerenciados pelo setor de produção, estejam diretamente ligados a um setor de pesquisa e desenvolvimento dentro da instituição.

A indústria automotiva cresceu bastante nos últimos anos, impulsionada principalmente pela antecipação do consumo em razão dos estímulos do governo. Enfim, o setor agora paga essa conta e sofre com a queda no consumo, agravada ainda mais pela redução no PIB. Há um consenso de que o ajuste fiscal possa restaurar a confiança do setor. Contudo, a agenda de reformas precisa ser executada. Ações de curto e médio prazos, focadas em um câmbio mais competitivo, em juros equiparados aos padrões internacionais e em um sistema tributário mais maduro e sem cumulatividade, são desejadas pela indústria.

Dessa forma, percebe-se uma série de esforços que buscam remediar a crise. Há até mesmo uma tentativa de aprimoramento tecnológico. Mas os investimentos diminuíram, quando na verdade a indústria deveria, hoje, investir em desenvolvimento. Essa percepção de que sair da crise depende só do Brasil precisa incluir projetos de pesquisa e geração de know-how, não focando somente em ações fiscais e projetos de lei.

Menos conversa e mais trabalho, menos reuniões e mais leitura, menos decisões e mais visão a longo prazo… Enfim, o caminho e a forma com que caminhamos precisam mudar.

Alisson Duarte da Silva
Alisson Duarte da Silva
Professor Adjunto dos Departamentos de Engenharia Mecânica e Metalúrgica da PUC Minas e do Departamento de Engenharia de Materiais da UFMG. Coordenador do curso de “Implementação da Análise de Custos e da Simulação de Processos de Fabricação” da PUC Minas. Agente Sul-Americano das empresas SORBIT Valji D.O.O. (cilindros de laminação) e JMatPro (simulação e previsão de propriedades de materiais)

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