O papel dos fabricantes de ferro-liga no desenvolvimento da metalurgia

O papel dos fabricantes de ferro-liga no desenvolvimento da metalurgia

Uma parte significativa da tecnologia sobre a fabricação e aplicação dos produtos siderúrgicos pode ser creditada aos produtores de elementos de liga. Muito embora a principal motivação para essas atividades tenha sido comercial, os benefícios delas decorrentes se estenderam para todo o campo de metalurgia e constituíram uma base fértil não só para os novos produtos de hoje, como também para os que ainda virão.

O caso mais impressionante foi, sem dúvida, o da Climax Molybdenum, empresa norte-americana que produzia molibdênio – que, entre outros usos, é usado como elemento de liga em aços e ferros fundidos. Durante quarenta anos, entre as décadas de 1940 e 1980, a empresa promoveu simpósios, financiou pesquisas, editou dezenas de livros e forneceu gratuitamente, a quem quer que as solicitasse e para qualquer ponto do planeta, cópias de seus livros e artigos técnicos sobre as mais variadas aplicações de seu produto – e isso antes da internet! Ainda hoje o conhecimento descrito nesses trabalhos é extremamente útil, pois lá está a base metalúrgica de muitos produtos siderúrgicos modernos. E mais: nesses trabalhos mais antigos não havia preocupação com restrições de espaço ou de detalhamento técnico, o que torna seu conteúdo excepcional. No início dos anos 1980, com a popularização dos microcomputadores, a empresa chegou a patrocinar o desenvolvimento de programas para calcular a temperabilidade e curvas Jominy dos aços, especialmente os que continham molibdênio. Contudo, exatamente nessa época, uma grave crise se abateu sobre a empresa, até pelo aumento exorbitante de preço que o molibdênio havia sofrido e que forçou sua substituição pelos antigos clientes. Isso acarretou a desativação de seu programa tecnológico e o encerramento de um excelente programa de desenvolvimento e disseminação de tecnologia metalúrgica. Recentemente a promoção do molibdênio foi retomada por intermédio da International Molybdenum Association – IMOA (www.imoa.com), infelizmente não na mesma escala dos bons tempos, mas agora tomando partido da enorme facilidade para disseminação de informações que a internet proporciona.

Outra empresa, a International Corporation – INCO, fabricante de níquel e seus derivados, também manteve um programa de disseminação de publicações técnicas a partir dos anos 1950, voltado principalmente para aços inoxidáveis, em que o teor desse elemento geralmente é muito alto. Ele também foi bastante expressivo, mas não alcançou o mesmo porte das atividades da Climax. No início da década de 1980 seu acervo técnico foi repassado para o Nickel Institute (www.nickelinstitute.org), que o vem atualizando e disponibilizando on-line. O vanádio, por sua vez, é promovido por uma instituição neutra que reúne seus principais fabricantes, a VANITEC – Vanadium International Technical Committe (www.vanitec.org), que vem atuando desde os anos 1970 e mantém um ativo programa de promoção de eventos técnicos e distribuição de literatura técnica on-line. É uma situação similar à do cromo, em que a International Chromium Development Association (www.icedacr.com) vem promovendo seu uso há trinta anos, novamente com ênfase nos aços inoxidáveis, grande consumidor desse elemento de liga. Já o manganês era promovido pelo The Manganese Centre, que entre as décadas de 1970 e 1980 publicou livros sobre seu uso em aços e ligas de alumínio, bem como um boletim regular sobre as últimas novidades sobre suas aplicações. Essa instituição foi sucedida pelo International Manganese Institute (www.manganese.org).

O Brasil está bem representado nesse time pela Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração – CBMM (www.cbmm.com.br), pioneira no estudo e divulgação sobre as aplicações do nióbio e, em particular, seu uso em aços estruturais, onde teores da ordem de décimos de milésimos percentuais fazem toda a diferença em termos de resistência mecânica. Essas atividades, iniciadas na década de 1960, tiveram amplo sucesso em apresentar o desconhecido nióbio ao mundo e torná-lo um dos insumos mais estratégicos da atualidade. Vale ressaltar que as reservas desse metal se concentram quase que inteiramente no Brasil. O programa segue em frente, agora turbinado pela internet. Curiosamente, em função do efeito sinérgico da associação de nióbio e molibdênio sobre as propriedades dos aços, alguns dos últimos simpósios organizados pela CBMM foram feitos em conjunto com a IMOA.

Antonio Gorni
Antonio Gorni
Engenheiro de Materiais pela Universidade Federal de São Carlos (1981); Mestre em Engenharia Metalúrgica pela Escola Politécnica da USP (1990); Doutor em Engenharia Mecânica pela Universidade Estadual de Campinas (2001); Especialista em Laminação a Quente. Autor de mais de 200 trabalhos técnicos nas áreas de laminação a quente, desenvolvimento de produtos planos de aço, simulação matemática, tratamento térmico e aciaria

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