P&D e Inovações Tecnológicas

P&D e Inovações Tecnológicas

Caro leitor, o Brasil esconde oportunidades de P&D que só poderiam ser identificadas por líderes hábeis e oportunistas em agregar a enorme diversificação cultural e técnica de um determinador setor, e é a partir desta afirmação que foco esta coluna em um caso recente de sucesso no Brasil, em contraste aos nossos padrões culturais.

Inicialmente, afirmo que o governo americano é um forte incentivador de estudos colaborativos entre as montadoras de veículos em parcerias com institutos e universidades, mas o mais interessante é que as montadoras, concorrentes entre si, conduzem trabalhos em forma de consórcios colaborativos. Poderíamos dizer que esta situação dificilmente seria praticada em nosso país, até que uma iniciativa de três anos, finalizada em parte até setembro, deste ano, na USP, mudou a nossa visão de história; não intenciono fazer marketing deste trabalho, e sim avaliar como um observador que acompanhou os seus desdobramentos, para no final concluir a possibilidade de fazermos deste exemplo outros de sucesso, e para isto pretendo analisar a estratégia adotada e aceita pelo governo e participantes.

Partindo de uma legislação brasileira para melhorar o consumo de combustíveis em nossos motores Flex de combustão interna, beneficiando-se de incentivos fiscais, e ofertar produtos melhores ao consumidor, levaram a criação de um consórcio nacional denominado Triboflex, composto por montadoras, universidades, fornecedores e a Petrobras, e apoiado pela modalidade de fomento BIOEN da FAPESP, com foco principal em aspectos tribológicos, até então pouco estudados em nosso país devido à escassez de equipamentos avançados laboratoriais, como os tribômetros e interferômetros 3D. Trata-se de um projeto alicerçado nos pilares de eficiência energética, meio ambiente e a durabilidade do produto como fator de competitividade.

A pergunta que fica neste momento é como isto foi viabilizado e, portanto, inicio este debate indicando as necessidades particulares de cada um dos participantes como o motivador principal desta união.

O caráter deste tipo de P&D baseia-se na identificação dos interesses particulares como a parte mais importante na formação do grupo, seguidos pela identificação de um estudo focado, as competências técnicas dos envolvidos e o potencial laboratorial presente para avaliação experimental. Fica evidente que a verdadeira proposta estava atrelada em um dilema clássico, a pura necessidade de se conhecer algo a mais a respeito de motores Flex, a qual nossas matrizes automotivas são incapazes de nos disponibilizar.

“Pensando pelo lado das estratégias políticas, a maioria das montadoras com centros de P&D fora do Brasil não poderia apoiar uma iniciativa local para o FC a etanol, ao menos que fossem direcionados para isto e pelo governo”

A regra de sucesso adotada foi a associação dos professores, alunos bolsistas como mão de obra para geração de conhecimento, a utilização da estrutura laboratorial presente nas instituições públicas e a viabilização de recursos das empresas e identificação de temas de interesses focados precisamente nos objetivos coletivos dos participantes e, neste sentido, partir para a criação de células de estudos para condução de temas em específicos, interligados com a proposta principal do estudo. No caso do Triboflex, houve a separação de dois campos de P&D, materiais e lubrificantes, nos quais vários grupos começaram a trabalhar focando temas específicos, mas dentro da mesma matriz de interesse, todos orquestrados principalmente pela gestão de um líder, Prof. Amilton Sinatora, idealizador e responsável pelo consórcio. Entendo que o gerenciamento direto de uma proposta tem que gerar a motivação da iniciativa, que através de um conhecimento de causa opina-se a favor dos interesses técnicos, identificando objetivos que deverão ser perseguidos e também as diferenças culturais e necessidades de cada setor.

Interessante abordar que a confidencialidade não foi um tema crítico ao desenrolar dos estudos, porque, quando não existe praticamente conhecimento em uma área, fica impossível classificá-lo ou protegê-lo; de uma forma mais clara: primeiro precisamos conhecer para onde podemos ir para, depois, escolher o caminho a seguir. Este consórcio atuou claramente na primeira parte. Diante de todas estas observações, destaco a real importância do potencial de estudo dentro das universidades e institutos, mas sempre guiados pela relevância das metas da nossa indústria e, por fim, o governo como fomentador deste empreendimento.

Avaliando o lado de custos deste tipo de iniciativa, identifico que os valores desembolsados pelas empresas neste caso específico não equivalem nem aos custos anuais de contratação de um engenheiro, e as horas dedicadas ao P&D não passam de reuniões mensais para acompanhamento dos projetos, algo que se justifica facilmente dentro de uma organização, e funcionários das empresas são envolvidos em estudos de Stricto Sensu, gerando um maior grau de motivação e compromisso aos temas, e, em adicional, durante a etapa de qualificação destes alunos, percebe-se a participação formal de responsáveis pelo consórcio no sentido de opinar a favor do enquadramento do tema para os objetivos do projeto.

Diante destes fatos de P&D mostrados anteriormente que são raros em nosso meio, finalizo esta coluna afirmando que o real diferencial brasileiro não está na forma que o governo, empresas e institutos atuam, e sim na motivação de líderes que conseguem agregar e direcionar estes grupos, sendo os verdadeiros impulsionadores de P&D, preparados naturalmente para a características adversas de nosso país. Parabéns para este time do Triboflex, motivo de orgulho para o Brasil.

Obrigado e até a próxima.

Referências


[1] Link do site do projeto: www.bv.fapesp.br/pt/auxilios/35174/desafios-tribologicos-em-motores-flex-fuel/
Marco Antonio Colosio
Marco Antonio Colosio
Diretor de Associação e Atividades Estudantis da SAE BRASIL. Chairperson do Simpósio SAE BRASIL de Materiais Novos e Nanotecnologia. Engenheiro Metalurgista e Doutor em Materiais pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares - USP. Professor titular do curso de Engenharia de Materiais da Fundação Santo André, lecionando diversas disciplinas na área da Metalurgia. Colaborador e associado da SAE BRASIL com mais de 29 anos de experiência no setor automotivo nos campos de especificações de materiais, análise de falhas e inovações tecnológicas

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