P&D e Inovações Tecnológicas

P&D e Inovações Tecnológicas

Qual a relação que existe entre P&D e política? Parece meio estranho tratar deste assunto dessa forma, mas, sem dúvida, política está totalmente atrelada ao sucesso de uma iniciativa e é neste ponto que pretendo discutir nestas próximas linhas.

Quando pesquisamos as fontes de financiamento público é sentido um nítido favorecimento de temas exclusivamente estratégicos para a comunidade brasileira e outros secundários, isto é, alguns segmentos de financiamento favorecem campos específicos, aprovando itens de interesse em particular. Da mesma forma que o governo trata este assunto, as empresas também o fazem, mas de uma maneira mais concentrada dentro do ambiente empresarial.

Fornecendo mais ferramentas para assimilar esta questão, deixo o leitor entender que quando pretende-se criar um campo de P&D, e assim, partimos para um interesse pontual, estará na mão do empreendedor o planejamento do tema, mas por outro lado, como já discutimos em colunas anteriores, a eficiência de vários pequenos estudos de P&D, relacionados entre si, tem uma forte importância no sucesso da tecnologia, mas são nestes casos, casos que o pesquisador determina o planejamento do estudo, o qual, eventualmente, pode estar em descompasso com as estratégias políticas de uma empresa ou públicas.

Dando mais ênfase a esta discussão, vamos tratar o caso dos veículos elétricos e híbridos. Há quase 20 anos atrás presenciamos um forte interesse de muitos pesquisadores locais em estudar as células de combustível (FC) baseadas em sistemas de etanol puro, todavia, estávamos desalinhados com o mundo, onde o interesse era o emprego hidrogênio direto na célula, percebia-se que apenas o Brasil era o maior interessado no etanol, resultando em uma falta de apoio desta iniciativa por parte das montadoras globais, colapsando os estudos que poderiam começar a partir daí.

Décadas depois, observamos que nem a célula de combustível a hidrogênio decolou como a principal matriz energética, o que percebemos foi, posteriormente, um interesse forte e crescente nos sistemas híbridos que já estão usuais em veículos.

Esta mudança global no interesse da matriz energética veicular, baseada corretamente da situação tecnológica do produto e na cadeia de suprimentos, tem atrasado em dezenas de anos as aplicações das células a combustível, tempo suficiente para o etanol ser muito bem estudado e também se tornar uma opção local em um futuro próximo.

Pensando pelo lado das estratégias políticas, a maioria das montadoras com centros de P&D fora do Brasil não poderia apoiar uma iniciativa local para o FC a etanol, ao menos que fossem direcionados para isto e pelo governo. Neste ponto, relembro o Programa Brasileiro do Álcool, Proálcool, em 1975, que teve uma base política forte e estruturada que atingiu o sucesso nos motores OTTO, atrelado a vários incentivos fiscais e empréstimos bancários para os produtores de cana-de-açúcar e a indústria automobilística brasileira.

Voltando ao caso dos veículos híbridos, a pergunta que faço é no sentido de onde entra o Brasil neste cenário global, e fica difícil avaliar esta questão, o que nos parece mais lógico sempre será a importação destes produtos e/ou componentes, visto que trata-se de uma tecnologia que se renova e avança a cada ano, não havendo espaço para perda de tempo e tentativas, restando para nós os componentes e peças similares conhecidas e utilizadas nos veículos ao ciclo OTTO.

Resumindo a discussão, o Brasil não conseguirá se igualar ao globo em tempo real nesta tecnologia, mas poderíamos ser diferentes e criar algo que realmente levaríamos vantagem neste cenário e somos privilegiados, como o produto etanol na matriz energética, porém, este é um ponto que cabe aos nossos governantes apoiar e incentivar através de suas políticas públicas.

Finalizando o comentário, se o estudo do etanol nas FC fosse iniciado intensivamente naqueles primórdios, teríamos uma chance de ter desenvolvido um sistema de FC de alto rendimento e que não se contaminasse durante uso e daí poderíamos oferecer uma solução que despertaria a atenção global neste futuro que está chegando.

Um abraço e até a próxima edição.

Marco Antonio Colosio
Marco Antonio Colosio
Diretor de Associação e Atividades Estudantis da SAE BRASIL. Chairperson do Simpósio SAE BRASIL de Materiais Novos e Nanotecnologia. Engenheiro Metalurgista e Doutor em Materiais pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares - USP. Professor titular do curso de Engenharia de Materiais da Fundação Santo André, lecionando diversas disciplinas na área da Metalurgia. Colaborador e associado da SAE BRASIL com mais de 29 anos de experiência no setor automotivo nos campos de especificações de materiais, análise de falhas e inovações tecnológicas

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