Antonio Augusto Gorni

Nascido em 1958, na cidade de Garça, interior do estado de São Paulo, Antonio Augusto Gorni pouco viveu no interior. Filho de Antonio Gorni e de Carmen Iracy Müller Gorni, mudou-se para a capital paulista quando tinha apenas um ano de idade.

É Engenheiro de Materiais pela Universidade Federal de São Carlos, Mestre em Engenharia Metalúrgica pela Escola Politécnica da USP, Doutor em Engenharia Mecânica pela Universidade Estadual de Campinas e Especialista em Laminação a Quente na Usiminas. É autor de mais de 200 trabalhos técnicos nas áreas de laminação a quente, desenvolvimento de produtos planos de aço, simulação matemática, tratamento térmico e aciaria, incluindo quatro patentes. No entanto, a metalurgia não foi sua primeira paixão profissional. Diz até que caiu na metalurgia meio que de paraquedas.

Uma de suas principais influências foi seu avô materno, João Müller, que era administrador da fazenda de café Nossa Senhora do Poção, em Garça. Seu João também tinha, como hobby, uma oficina de carros, e isso acabou chamando sua atenção para a parte funcional das máquinas. Por esta curiosidade despertada pelo seu avô, enquanto ainda criança, acabou se interessando pela eletrônica, com um antigo brinquedo chamado Engenheiro Eletrônico, da Philips.

Conta que tinha ideia de seguir nesta área, uma vez que, na década de 1970, a eletrônica ainda era algo quase mágico. Seu pai, que trabalhava no Banco do Brasil e havia presenciado o processo de informatização daquela instituição, o aconselhou a olhar com atenção para o ramo da computação. Foi então que iniciou a preparação para o vestibular, ainda que de maneira leve, ouvindo rock, porém com seriedade. Sua irmã Rosângela costumava dizer que ele fazia o cursinho “Emerson, Lake & Palmer”. Prestou o vestibular sem grandes esperanças de aprovação, mais como um treino para o ano seguinte. Porém, para sua surpresa, mesmo sem ter se preparado de forma especial, foi aprovado no vestibular para o curso de Engenharia de Materiais, na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Era um curso desconhecido numa escola nova, ainda sem tradição, e numa modalidade com a qual não tinha nenhuma familiaridade. Finalmente, após muita reflexão, venceu o pragmatismo e, em 1976, acabou se mudando para São Carlos, no interior do estado, beneficiando-se da hospitalidade dos avós paternos, Ema e Américo Gorni.

No primeiro semestre cursou, entre outras, a disciplina “Introdução à Computação”. Lamentavelmente, por problemas logísticos, o curso teve caráter exclusivamente teórico. Mas, até em função dos conselhos paternos, no ano seguinte fez um curso de férias na área de programação de computadores, oferecido pela Escola de Engenharia de São Carlos, da USP. As férias foram perdidas, mas, em contrapartida, foi impactante por lhe proporcionar acesso a computadores e à sua programação de forma plena.

A computação foi a área na qual, então, se encontrou. Tanto que pensou em mudar de curso, mas se deparou com vários problemas. Os colegas que faziam computação tinham medo de não encontrar emprego, pois na segunda metade da década de 1970, a ciência da computação ainda parecia ser futurista demais para um país em desenvolvimento. Além disso, a demanda por engenheiros atingia o auge em pleno Milagre Brasileiro. Mais uma vez chegou a uma solução de compromisso: manteve o curso, mas sempre procurando por aplicações que envolvesse o uso da computação na Engenharia de Materiais. Na época isso era difícil, dados os recursos rudimentares dos poucos computadores existentes, que viviam sobrecarregados. Mas, enquanto muitos diziam para deixar isso de lado, Gorni sempre se manteve firme de que isso seria o futuro.

Em 1978, deixando um pouco de lado a computação, voltou o foco para o curso de Engenharia, primeiramente na área de materiais poliméricos e, posteriormente, dos materiais metálicos. Finalizou o curso universitário em 1981, justamente quando estourou a crise financeira no Brasil (resultado da recessão adotada pelo governo de então para conter os desequilíbrios externos) e muitas pessoas ficaram sem emprego. Antonio Augusto Gorni, entretanto, passa em primeiro lugar no concurso da Companhia Siderúrgica Paulista (COSIPA), iniciando no emprego em março de 1982.

Na época, o treinamento dos novos engenheiros na COSIPA tinha duração de dois anos. Gorni foi alocado na Gerência de Controle da Qualidade, onde atuou principalmente em aciaria e frequentemente trabalhando em regime de turno de revezamento. Diz que a experiência foi muito boa, apesar de ter terminado com muitos namoros, visto que a alternância semanal de horários prejudicava qualquer atividade social. Por outro lado, nessa mesma época, ocorria o boom da microinformática, com a estreia dos computadores pessoais oferecidos a preços acessíveis. Isso viabilizou a retomada do antigo projeto sobre a aplicação de técnicas computacionais em metalurgia, que agora não dependia da difícil autorização para uso do mainframe empresarial. Por outro lado, era frustrante ver os colegas da área de computação trocando de emprego (e dobrando o salário) a cada semestre, enquanto os engenheiros mal conseguiam se manter empregados.

Terminados os dois anos de treinamento, Gorni, no início de 1984, passou a trabalhar no Núcleo de Pesquisas Tecnológicas da mesma empresa, concretizando uma antiga aspiração. Para tanto, foi necessária uma mudança de área de atuação, que passou da aciaria para a laminação de tiras a quente. Fez o Mestrado, patrocinado pela empresa, o qual foi concluído em 1990. Ao término do Mestrado, ao retornar para as atividades na usina, foi deslocado para atender a outro setor da siderúrgica, a Laminação de Chapas Grossas. Foi um período bastante ativo no desenvolvimento de aplicações computacionais em metalurgia, tanto em função das atividades acadêmicas como pelo surgimento de computadores pessoais cada vez mais velozes e potentes. Um dos pontos altos desses desenvolvimentos foi a aplicação de redes neurais no modelamento da laminação a quente, trabalho pioneiro em nível mundial desenvolvido em 1993. O advento da internet também não passou desapercebido, tendo implantado sua página pessoal (www.gorni.eng.br) já em 1996. Posteriormente, cursou o Doutorado, por conta própria, o qual foi defendido em 2001. Em abril de 1999 foi transferido para a Gerência de Suporte Técnico da Laminação a Quente, passando a atuar como uma espécie de consultor tecnológico para as linhas de laminação de tiras a quente e de chapas grossas, área em que se encontra desde então. Os modelos matemáticos sobre laminação a quente e tratamento térmico nunca saíram de seu radar, mas hoje essa atividade já pode ser considerada rotineira em todo mundo. Em novembro de 2013 foi homenageado pela Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração pelo número recorde de contribuições técnicas apresentadas no Seminário de Laminação promovido por aquela entidade. Note-se que nesse meio tempo ocorreu a privatização da COSIPA, adquirida em 1993 por um grupo de investidores ligado à USIMINAS, que a incorporou em 2009.

Entre 1990 e 2000 foi professor no Departamento de Metalurgia da Faculdade de Engenharia Industrial (FEI), tendo ministrado disciplinas na área de metalografia de materiais ferrosos e, posteriormente, na área de materiais poliméricos. Desde então as atividades docentes continuam em alguns cursos de especialização promovidos pela Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM).

Mantém, ainda, uma carreira editorial, iniciada na própria COSIPA, que publicava boletins técnicos com notícias e resumos de artigos técnicos para cada área da usina. Como era difícil conseguir pessoal para essa tarefa, Gorni, que sempre gostou de escrever, prontificou-se também a fazer esse tipo de trabalho. Inclusive foi exercendo essa atividade que conheceu sua esposa, Regina Zayat Gorni, com a qual se casou em 1992. Pode-se dizer que sua esposa foi sua primeira editora.

Deu sequência às atividades editoriais na Aranda Editora Técnica e Cultural, na qual, desde 1989, faz traduções técnicas do alemão e do inglês para as áreas de metalurgia e plásticos. Conheceu a editora meio que por acaso, uma vez que foi indicada a ele para que publicasse trabalhos de sua tese. Em 1998, com a fundação da revista Plástico Industrial, foi convidado pela mesma para ser o editor técnico da publicação, atividade que exige visitas periódicas às feiras técnico-comerciais no setor, como a K, na Alemanha, e a NPE, nos EUA. Posteriormente, também assumiu o cargo de editor técnico da revista Corte e Conformação de Metais e também atua como colaborador na revista Fundição e Serviços, todas da Aranda.

Para o futuro, diz que, se pudesse, voltaria a ser o “hippie” que era aos 16 anos, com cabelos compridos, mas que estudava eletrônica e tocava piano. Conta que, às vezes, sente-se tão indeciso quanto na época em que precisava decidir qual curso escolher para o vestibular. Com ideias de ir para a cidade de Socorro, no interior do estado de São Paulo, quando se aposentar, fica na dúvida sobre a adaptação em uma cidade mais tranquila. Sempre adepto da informatização, a primeira coisa que colocou em sua chácara no campo foi, justamente, a internet. Ainda sobre quando se aposentar, certo é que voltará a se dedicar à música, retomando os estudos ao piano.

Por ser um misto de alemão com italiano, conta que, enquanto o lado italiano fala em parar, tocar piano e filosofar, o lado alemão manda ficar na ativa. Pensando em um possível “soft landing”, que não significa necessariamente uma interrupção nas atividades, mas uma transição para uma nova carreira, ressalta que o importante é não se estressar, não ficar doido com as coisas, mas sim manter-se, tanto quanto possível, em atividade – em resumo, keep calm and carry on.

 

Udo Fiorini
Udo Fiorini
Sócio por 10 anos de uma empresa de fornos industriais. Formado em jornalismo pela PUC Campinas, desde 2008 edita no Brasil as revistas Industrial Heating e Forge. Sócio da empresa Grupo Aprenda que realiza cursos, seminários e eventos voltados para as áreas atendidas pelas publicações da S+F Editora

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