Fred Woods de Lacerda

O maior desafio de se escrever sobre Fred Lacerda é fazer o texto enquadrar em uma só página. Personalidade surpreendente, que discorre com naturalidade sobre temas que vão de Aristóteles a Descartes, de Barão de Mauá a Percival Farquhar passando pelo engenheiro Monlevade, de D. João VI a Lula passando por Getúlio e Jânio Quadros, da Fundição Ipanema à fundação da ABM passando pela criação do IPT, do conversor Bessemer ao conversor LD, Fred sustenta horas de apaixonante conversa que tem que ser convertida nas poucas linhas desta coluna.
Nascido e criado no Rio de Janeiro, Fred queria fazer engenharia naval, que na época ainda não era possível cursar no Brasil. Mas era sabido que a Marinha de Guerra brasileira oferecia aos seus oficiais e graduados a tenente a possibilidade de estudar no MIT, Massachusetts Institute of Technology, nos Estados Unidos, considerada a melhor escola de engenharia naval do mundo. Assim, de olho nesta possibilidade ele iniciou em 1943 o curso preparatório para o Exame na Escola Naval. Ingressou na Marinha de Guerra como aspirante em 1944, em plena segunda guerra mundial. Serviu em destroyers e caça minas que escoltavam e protegiam de ataques de submarinos alemães os navios mercantes que transportavam carne da Argentina e minério de ferro para os aliados. A guerra terminou em junho de 1945, mas ainda em 1946 ele esteve envolvido no transporte de tropas, desta vez trazendo-as de volta ao Brasil.
Deu baixa como 2º tenente da Marinha de Guerra em 1949. Descobriu que a Marinha havia suspendido o curso de Engenharia Naval no MIT, esperando que uma universidade iniciasse o curso no Brasil. Fred acabou decidindo estudar Engenharia Civil. Aproveitou que tinha arrumado emprego em Curitiba se inscreveu na Universidade Federal do Paraná, onde se formou em 1955.
Em 1956, ocorreram dois fatos importantes: ingressou como sócio na ABM, Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração, e foi admitido como funcionário na então Acesita, Aços Especiais Itabira, hoje Aperam. Quando a diretoria da empresa decidiu criar o Centro de Pesquisas da Acesita, Fred pôde dar vazão ao seu gosto pela pesquisa industrial. A Acesita lhe ofereceu estudar nos Estados Unidos, na Rutgers University, em Nova Jersey. Com bolsa da CAPES, ele fez o curso de cerâmica com ênfase em refratários. Quando voltou ao Brasil, em 1957, retomou seu lugar como chefe da Divisão de Refratários da Acesita.
Fred conta que Jânio Quadros, então presidente do Brasil, em 1961 designou um político despreparado para dirigir a Acesita, que havia sido estatizada em 1951. A incompatibilidade com esta nova direção o fez buscar novos rumos, aceitando o convite para trabalhar com a empresa A. P. Green, então um grande produtor de material refratário nos Estados Unidos. Gerenciou a fábrica que construíram em Barro Blanco, no Rio de Janeiro. Ali fabricavam, sob patente americana, cimentos refratários e tijolos. Foi nesta época que ele fundou, juntamente a outros colegas, a comissão de refratários na ABM, sendo seu primeiro presidente. Destaca que foram publicados na ABM, naquela ocasião, artigos dele sobre pesquisa industrial efetuada em sua usina. Em 1968, integrou uma comissão organizada pelo CNPq, com a missão de desenvolver a definição de PI, Pesquisa Industrial. Ele conta que, com isso, o CNPq reconheceu o direito das usinas de tomarem recursos financeiros para realizar pesquisas em seus laboratórios.
Em 1973, aceitou o cargo de secretário-geral do Instituto Brasileiro de Siderurgia, IBS, hoje Instituto Aço Brasil, função que exerceu até 1982. Acumulou com o cargo de secretário regional do ILAFA, Instituto Latino Americano del Fierro y  del Acero, e como membro da Comissão de Tecnologia do IISI International Iron and Steel Institute, com sede em Bruxelas, onde durante três anos participou dos estudos para produzir aço que pudesse reduzir o peso dos automóveis. Em 1975 foi membro de um Grupo de Trabalho da UNIDO, United Nations for the Industrial Development, com sede em Viena, na Áustria. Este grupo foi formado para levar o avanço da siderurgia a países em desenvolvimento. Entre os países visitados e que responderam positivamente a este plano se encontravam China, Índia e Coréia do Sul.
Entre outras atividades desenvolvidas na época, Fred Lacerda diz que em 1983 voltou às áreas limítrofes da PI com o avanço das tecnologias ao se tornar representante no Brasil do processo Galvalume 55% Al, Zn. A CSN acabaria adquirindo os direitos totais sobre o processo no Brasil. Em 1984 tornou-se consultor do grupo CAEMI, usando o conhecimento tecnológico na assessoria da venda de minério de ferro produzida pela empresa a países como China e Japão.
Em 1995, decidiu cursar filosofia no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ/IFCS. Conforme Fred, isto fazia parte de um plano que sempre teve em mente fazer: estudar Filosofia. Em 2012, defendeu e obteve título de mestrado na UFRJ, na área da História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, HCTE. Título de sua tese: “A Evolução da Fabricação do Ferro no Brasil, desde 1550, e a importância da Pesquisa Industrial para a produção de Aço, após 1922”. Seu orientador de mestrado, Prof. Antonio Augusto Passos Videira, comenta que Fred Woods de Lacerda tem muito para contar sobre a indústria siderúrgica brasileira: – Espero que ele escreva trabalhos sobre isso.

 

Udo Fiorini
Udo Fiorini
Sócio por 10 anos de uma empresa de fornos industriais. Formado em jornalismo pela PUC Campinas, desde 2008 edita no Brasil as revistas Industrial Heating e Forge. Sócio da empresa Grupo Aprenda que realiza cursos, seminários e eventos voltados para as áreas atendidas pelas publicações da S+F Editora

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *