Reação local visa demanda global: O caso PHS

Reação local visa demanda global: O caso PHS

Caro leitor, tenho mostrado nas colunas anteriores aspectos locais no tratamento de inovação e P&D, abordando os problemas e soluções. Porém, pretendo nas linhas seguintes explorar alguns segmentos de interesse de grande parte das empresas automotivas, no geral, para quesitos estratégicos na aplicação de produtos, que estão ligados à segurança veicular e economia de combustível. Por exemplo, nesta edição explorarei um tema muito discutido nos fóruns de engenharia, o qual chamamos “produtos de PHS”, ou seja, peças manufaturadas pela estampagem a quente, em que as excelentes propriedades mecânicas obtidas no processo de conformação proporcionam veículos mais seguros e econômicos através da leveza e resistência da estrutura.

Esta tecnologia iniciada na década passada na Europa e América passou a ter um interesse global e o Brasil tem recentemente vivenciado uma corrida com fornecedores de matéria-prima e fabricantes de peça. O processo PHS, iniciais de Press Harderning Steel, permite conformar configurações críticas durante a estampagem a quente e, ainda, prover uma elevada resistência mecânica durante o processo de tratamento térmico executado na sequência.

Uma questão que acontece neste caso e com frequência no Brasil é que, normalmente, estamos atrasados em relação ao globo. Isto é, se os projetos automotivos locais solicitarem uma demanda em massa deste produto não teríamos fornecedores suficientes e nem o suprimento de matéria-prima que atendesse à necessidade. Esta sequência de eventos nos deixou desatualizados em relação ao cenário internacional. Um outro ponto importante é o custo resultante do valor agregado desta tecnologia, não muito amigável para os padrões dos veículos populares e da situação econômica local.

Em adicional, a aplicação deste produto no veículo requer considerável “know how”, provenientes de P&D, para se tornar rotineira e segura, como, por exemplo, as questões importantes de qualidade relacionadas à soldagem deste material de alta temperabilidade, sem a ocorrência de trincas, corrosão da superfície da chapa durante a exposição em temperaturas elevadas do forno e no produto final após pintura e, finalmente, condições de processo de conformação e resfriamento na ferramenta.

Por uma outra visão, tratando o emprego destes tipos de tecnologia, definições de rotas e plataformas de produtos ocorridas em fases iniciais de projetos levam em conta a demanda local e suprimento de processo e matéria-prima. Sumarizando, encontramos um círculo vicioso: o projeto só exigirá esta tecnologia se tiver suprimento e o suprimento só acontecerá se houver pedido.

Este é um ponto que precisamos melhorar em nosso país. Isto é, as novas tecnologias precisam ser incentivadas pelo governo através de regulamentações, linhas de investimento e incentivos e pelo fomento dos P&D relacionados às mesmas linhas de interesses e, acima de tudo, prever o momento certo em que todas as ações se coincidem com a aplicação do produto. Hoje, notamos que a rede de interação criada globalmente para esta tecnologia é muito bem estruturada e articulada, com a participação expressiva de montadoras, universidades, sistemistas, usineiros e, ainda, contando com o suporte público para apoio e investimentos.

Continuando o caso do PHS, é interessante ressaltar, positivamente, que no Brasil, recentemente, as exigências do Inovar Auto e as regulamentações de segurança do CONTRAN estão alavancando fortemente esta tecnologia, mesmo que de forma atrasada em relação ao resto do mundo. Porém, em contrapartida, está gerando uma consequência negativa e não avaliada pelos governantes, forçando as montadoras a pagarem a conta para importar estes componentes até que a demanda local se regularize.

Este tipo de especulação e estratégia forçada cria o que chamamos de uma “corrida do ouro” desordenada e de risco, que obriga as empresas a aprovarem um plano de investimento local baseado em uma situação criada pelo momento especulativo, e é exatamente neste ponto que lanço uma pergunta para os nossos governantes, empresários e consumidores: se em algum momento eles decidiram ao mesmo tempo seguir com a mesma linha de raciocínio e estratégia. Cabe a todos pensarem nisto.

Um abraço e até a próxima edição de IH.

Marco Antonio Colosio
Marco Antonio Colosio
Diretor de Associação e Atividades Estudantis da SAE BRASIL. Chairperson do Simpósio SAE BRASIL de Materiais Novos e Nanotecnologia. Engenheiro Metalurgista e Doutor em Materiais pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares - USP. Professor titular do curso de Engenharia de Materiais da Fundação Santo André, lecionando diversas disciplinas na área da Metalurgia. Colaborador e associado da SAE BRASIL com mais de 29 anos de experiência no setor automotivo nos campos de especificações de materiais, análise de falhas e inovações tecnológicas

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