Um conto de duas empresas

Apesar dos diversos rumores sobre fusões e incorporações ocorridos ao longo das últimas duas décadas, o fato é que, no fim das contas, verificou-se uma desnacionalização parcial do parque siderúrgico nacional

Tanto a Vale do Rio Doce como a Companhia Siderúrgica Nacional (mais conhecida como CSN) surgiram durante a década de 1940 – ambas são consequências da II Guerra Mundial, ainda que por razões diferentes. A Vale constituía uma nova fonte de minério de ferro de alta qualidade para o esforço de guerra dos aliados, enquanto a CSN era uma compensação pela colaboração brasileira durante o conflito. Por isso é curioso observar como as duas empresas evoluíram de maneira diferente.

Durante esse período, a Vale não só consolidou a exploração de suas minas e ferrovias no Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, como se expandiu nacionalmente, dando início à exploração da gigantesca província mineral de Carajás (PA). Uma vez privatizada, em 1997, globalizou-se e tornou-se um dos grandes players da exploração mineral – com ênfase, naturalmente, no minério de ferro. Transformou-se, portanto, numa multinacional brasileira. E extremamente bem-sucedida: a escalada do consumo de aço pela China, iniciada em 2002, inflou a níveis inéditos o preço e produção do minério de ferro, bem como os lucros da Vale.

Já na área da siderurgia o rumo dos acontecimentos foi bem diferente. O “Nacional” incluso no nome da CSN logo perdeu o sentido. Outras usinas siderúrgicas integradas, como a Cosipa e Usiminas, foram implantadas nos anos seguintes de forma independente, apesar também de contarem com investimento federal. O efeito multiplicador que a siderurgia tem sobre o parque industrial local e o desenvolvimento regional fez com que elites e governos locais atropelassem eventuais planejamentos federais. Se, por um lado, finalmente a vocação siderúrgica brasileira saía do berço esplêndido, por outro se perdeu a oportunidade de criar um grande conglomerado siderúrgico, o que permitiria centralizar esforços (em pesquisa e desenvolvimento, por exemplo), diluir custos e ganhar economia de escala.

O governo federal até tentou criar tal conglomerado em 1973, quando buscou reunir todas as grandes usinas siderúrgicas estatais dentro de uma holding, a Siderbrás. Contudo, ao longo de toda a sua existência, jamais houve uma integração total entre seus membros, que tiveram suas próprias realidades industriais, técnicas e econômicas. Tanto é que, vinte anos depois, ao se iniciar o desmonte das empresas estatais, não se cogitou privatizar a Siderbrás como um todo, mas sim de forma separada, para não prejudicar o valor de venda das usinas em melhor situação econômica. Isso selou o fim definitivo do sonho de um grande conglomerado siderúrgico nacional.

Por sinal, a Usiminas foi a primeira estatal de grande porte a ser privatizada, em 1991. Ela foi escolhida para essa estreia em função de sua condição de empresa-modelo em termos de organização, economia e tecnologia. As outras siderúrgicas, em pior situação econômica e operacional, foram privatizadas anos depois. Houve uma única fusão, da Cosipa pela Usiminas, justamente em função da precária condição técnica e econômica em que se encontrava a usina paulista.

Apesar dos diversos rumores sobre fusões e incorporações ocorridos ao longo das últimas duas décadas, o fato é que, no fim das contas, verificou-se uma desnacionalização parcial do parque siderúrgico nacional. A Companhia Siderúrgica de Tubarão e Acesita acabaram sob controle da Arcelor e, posteriormente, Arcelor-Mittal. A Usiminas, que já tinha participação da Nippon Steel, recentemente teve a Tenaris incluída em seu bloco de controle, fazendo com que a maior parte de seu capital ficasse fora de mãos nacionais. Esse fato não chega a ser um grande problema nos pragmáticos tempos de hoje, em que o dividendo é rei e o aço já não tem mais a importância estratégica de outrora, mas mostra a inapetência nacional em fortalecer sua indústria frente à competição externa, que, por sinal, vem assumindo contornos dramáticos em função da pantagruélica expansão (e modernização) pela qual vem passando a siderurgia chinesa, do surgimento de competidores, como a Índia e a Turquia, e dos pesos-pesados de sempre, como o Japão e a Coreia do Sul.

Agora, o Brasil nem mesmo tem a vantagem do minério mais barato, mesmo nos casos em que os grupos aos quais pertencem as usinas disponham de minas próprias. A atual política empresarial tende a separar os negócios dentro de um mesmo grupo. Isso faz com que as cotações internas de minério situem-se no mesmo patamar dos preços de exportação – a vantagem fica unicamente por conta da maior proximidade do insumo e do menor custo do transporte.

Portanto, não é de se admirar que a profunda crise siderúrgica mundial tenha afetado tanto nossas usinas. Conseguir lucrar sem economia de escala, sem infraestrutura eficiente e sem o virtuosismo técnico de seus competidores orientais e europeus é, realmente, coisa para os fortes.

Antonio Gorni
Antonio Gorni
Engenheiro de Materiais pela Universidade Federal de São Carlos (1981); Mestre em Engenharia Metalúrgica pela Escola Politécnica da USP (1990); Doutor em Engenharia Mecânica pela Universidade Estadual de Campinas (2001); Especialista em Laminação a Quente. Autor de mais de 200 trabalhos técnicos nas áreas de laminação a quente, desenvolvimento de produtos planos de aço, simulação matemática, tratamento térmico e aciaria

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