As voltas que o mundo dá

Quem diria que o país da dívida externa impagável dos anos 1980, onde a compra de dólares era rigidamente controlada, que chegou a cobrar taxas extorsivas de quem queria viajar para o exterior, onde importar era palavrão e a gasolina era virtualmente racionada, hoje é convidado a participar de fundos para resgatar países europeus em dificuldades econômicas! A causa do novo milagre brasileiro é simples: a voraz demanda da China por produtos agrícolas e matérias primas, que vem se mantendo crescente ao longo dos últimos dez anos, e da correspondente valorização das cotações dessas mercadorias.

Por outro lado, a abundância de dólares valorizou excessivamente a nossa moeda. Setores não tão eficientes de nossa economia tiveram sua competitividade seriamente afetada no mercado externo, especialmente o industrial, sempre afetado pelas tradicionais mazelas brasileiras. É o caso da siderurgia, que enfrenta a importação tanto direta como indireta de seus produtos, esta última na forma do aço presente em bens duráveis, especialmente automóveis. Ironicamente, é nosso minério de ferro que alimenta os principais concorrentes da siderurgia nacional. As cotações dessa matéria prima vêm batendo contínuos recordes, alimentadas pelo dragão chinês.

Quem diria que, há quase cem anos atrás, a dúvida entre exportar minério ou produzir aço gerou uma exaltada polêmica nacional! Em 1919, Percival Farquhar, um polêmico mega-investidor norte-americano, adquiriu os direitos para explorar e exportar o minério de ferro de Itabira, em Minas Gerais, que então se acreditava ser a última reserva de alta qualidade desse insumo disponível no planeta. O empreendimento, apesar de abençoado pelo governo federal, enfrentou forte resistência por parte do governador mineiro, Arthur Bernardes, para quem ele representava apenas uma nova espoliação das riquezas minerais do estado, a exemplo do que havia ocorrido durante a corrida do ouro da época colonial. O governador preferia que o minério fosse processado localmente e inviabilizou o projeto, impondo um pesado tributo sobre o minério de ferro bruto que saísse do estado. Ocorreu então um intenso debate nacional entre os grupos favoráveis ou não ao empreendimento. Houve quem afirmasse que, na verdade, a oposição a Farquhar vinha de grupos políticos locais, temerosos que o desenvolvimento econômico e social na região acabasse por solapar seu poder. O impasse fez com que a concretização do empreendimento se arrastasse durante vinte anos, ao longo dos quais nem se exportou minério, nem se criou o pólo siderúrgico proposto. Somente em 1941, com o “incentivo” dos EUA e da Inglaterra, extremamente interessados em garantir matéria prima para que suas siderúrgicas pudessem atender às demandas vitais da II Guerra Mundial, é que o governo brasileiro encampou o empreendimento de Farquhar e acelerou o ritmo de sua implantação, dando origem à Companhia Vale do Rio Doce. Apesar da desapropriação de seu empreendimento, Farquhar insistiu em continuar investindo no Brasil, tendo logo a seguir participado do empreendimento que deu origem à usina siderúrgica Acesita (hoje Aperam), próximo à região de seu antigo projeto.

Curiosamente, setenta anos depois desses eventos, não há polêmica alguma: praticamente não há contestação à livre exportação de minério de ferro, mesmo com as siderúrgicas locais enfrentando sérias dificuldades para comercializar sua produção. Todo um patrimônio nacional em equipamentos, pessoal e tecnologia, duramente construído ao longo de décadas, está ameaçado, não só na siderurgia, como em praticamente todos os setores industriais brasileiros.

Surge então a pergunta: como ficarão os preços das importações quando nossas indústrias desaparecerem? A lógica cruel do liberalismo indica que subirão muito, já que não haverá possibilidade de concorrência interna. É esse o país que desejamos para o futuro? Certamente não. O país tem de ser realmente competitivo – e a longo prazo. Mágicas cambiais e fiscais somente favorecem a incompetência e atrasam o país. Indústria e governo precisam pensar grande e atuar de forma firme e audaz para realmente vencer nossos entraves de carga tributária, logística, tecnologia e educação. De toda forma, dentro de mais alguns anos veremos se o país foi capaz de reagir ou se foi vencido pela preguiça macunaímica que está por trás de seu complexo de eterna colônia.

Antonio Gorni
Antonio Gorni
Engenheiro de Materiais pela Universidade Federal de São Carlos (1981); Mestre em Engenharia Metalúrgica pela Escola Politécnica da USP (1990); Doutor em Engenharia Mecânica pela Universidade Estadual de Campinas (2001); Especialista em Laminação a Quente. Autor de mais de 200 trabalhos técnicos nas áreas de laminação a quente, desenvolvimento de produtos planos de aço, simulação matemática, tratamento térmico e aciaria

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