Quem vai cuidar da criança?

Digo cuidar no sentido de zelar, de acompanhar, de tratar, de sustentar, de nutrir, de ocupar-se. Afinal, dar à luz é coisa séria. Creio ao menos que a porção mais sensata da humanidade pensa assim. Cuidar demanda recursos. Tempo e dinheiro, talvez, sejam os mais expressivos e fáceis de enumerar e reconhecer (e como esta não é uma revista voltada para pais e filhos, não vamos nem falar de sentimentos). Guardada as devidas proporções, no mundo corporativo muitos empreendedores e líderes concebem planos, produtos, estratégias e depois não cuidam.

Há alguns anos trabalhei em uma empresa onde o proprietário dizia a todo instante aos seus colaboradores, em relação aos pedidos: “têm que cuidar!”. E, em grande medida, ele estava certo. Ele queria dizer que não bastava tirar o pedido, mas era necessário estar comprometido com o sucesso daquela venda, o que implicaria estar comprometido com o próprio cliente. Era preciso acompanhar, ser o gestor. Claro que muitas vezes a solução de um problema de processo não está ao alcance do colaborador. Contudo, com o devido acompanhamento, ao menos será possível resolver ou mesmo evitar reclamações e desapontamentos.

Se alguém quer ver se a coisa é realmente importante dentro da organização, veja como a liderança trata o assunto. Qualidade, por exemplo. O “CEO” leva isso a sério? Ou é só para “inglês ver”? Outro exemplo são os quadros de “missão, visão e valores”, pendurados na recepção. Se a liderança não considerar como importantes aquelas linhas e não acreditar naquilo que estiver escrito, tudo não passará de “preenchimento de linguiça”, porque aquelas belas frases quase poéticas, decoradas por traças e teias de aranha, em nada terão valor ou pautarão as ações da equipe. Melhor pendurar um quadro com a imagem do Chaplin ou do Gandhi, ao menos seria mais inspirador.

Quer outro exemplo bem mais fácil? A limpeza. Você já viu uma indústria limpa, organizada e arrumada se a limpeza não for de fato um valor para seu líder? Esqueça! Conheço ferramentarias tão limpas que seria possível fazer um piquenique no chão da fábrica. Conheci uma que a parede era pintada de branco.

Com a participação da corporação nas redes sociais, o processo é semelhante. Liderança que despreza a relevância da web 2.0, seja por ignorância, seja por falta de interesse ou por qualquer outro motivo, presenteia a companhia com uma página medonha. Além do perfil na web esfera não ser capaz de ajudar, ainda atrapalha. É aí que mora o perigo. O problema é que o mundo está ficando complicado. Hardwares, softwares e potes de utilidades domésticas invadiram as nossas vidas. Como internet e videogame algumas vezes se confundem, geralmente nas pequenas e médias empresas o serviço ficará por conta do Júnior, o filho ou sobrinho do dono. Aquele “garoto esperto” que “manja” tudo de informática. Aí você visita a página da empresa e vê ações fantásticas. Vou relacionar algumas que já testemunhei:

– Uma página que segue umas “mina da hora” e não se relaciona com mais ninguém relevante (profissionais do segmento, formadores de opinião e outras organizações), porque é lógico, o “garoto esperto” não conhece o contexto no qual o negócio está inserido, não sabe a diferença entre uma furadeira e uma torradeira e o interesse dele é naturalmente outro;

– O perfil corporativo segue e/ou acompanha perfis de celebridades. Bem, eu falei que o interesse era outro;

– O garotão insere um post do tipo “gostei do vídeo xyz” (pode ser do grupo momento: funk, sertanejo, metal ou um vídeo engraçado, uma pegadinha ou qualquer outra coisa) – mais um, digamos, conflito de interesse;

– Insere um post reverenciando as qualidades de seu time do coração após a vitória do domingo e até faz algumas gozações com a torcida adversária – difícil não despertar a ira de alguns potenciais compradores;

– Têm aqueles que mandam um recado: “Mano, o churras tava 10, mas a breja tava quente, tá ligado?” – dispensa comentários;

– Perspectivas preconceituosas e palavras desapropriadas também são frequentes;

– Opiniões políticas acompanhadas por expressões desbocadas, esbravejando contra o partido que está no poder – tudo na escuridão do abismo do senso comum. Doem os olhos e dá desespero quando vemos estas pérolas estampando a página da organização. Nada disso irá contribuir para seu posicionamento positivo no mercado junto a seus clientes, fornecedores, colaboradores, parceiros e comunidade. E porque não houve um cuidado básico, ou seja, a separação do perfil corporativo do perfil pessoal. Os serviços do Júnior saíram caros.

Nas páginas das empresas maiores é comum vermos erros de estratégia. Transformá-la em portal de classificados, “bater boca” com aquele que faz uma reclamação, não se relacionar com seus seguidores/fãs, ou seja, continuar agindo da mesma forma antiga – o fornecedor fala e o consumidor ouve passivamente, isso acabou. E infelizmente só é descoberto na primeira crise. O ambiente web 2.0 é um espaço incrível e pronto para ser utilizado a seu favor. Entretanto, sua utilização requer cuidados. Se você, gestor, começar elencando objetivos bem definidos do tipo: “o que eu pretendo alcançar ingressando em um site de relacionamento?”, já será um bom começo.

Faça um benchmarking, invista um pouco do seu tempo para conhecer melhor a ferramenta. Veja o que seu concorrente está fazendo. Ele ainda não entrou? Ótimo, você sairá na frente. Não precisa se tornar um especialista, apenas seria oportuno conhecer como as coisas acontecem por lá. E você poderá observar que uma maneira de construir uma boa impressão consiste em transmitir informação valiosa por meio de suas postagens.

Quem vai desejar viver em sua companhia só para ver sua autopromoção? Aqueles que necessitam de seus produtos e serviços? Mas isso é muito pouco perto do universo de possibilidades que as redes sociais oferecem. O destino dos spams não é a lixeira? Pois irá acontecer a mesma coisa e quem será deletado será você, com um simples clique. Não caia nesta tentação. A disputa pela atenção dos navegantes é grande, tem muita coisa interessante na internet. Pense quais os alvos que pretende atingir e o que estas pessoas demandam? Qual tipo de postagem (informação) seria capaz de ter um significado relevante para estas pessoas? No final haverá interação. Relacionamentos serão construídos e assim você acabará tendo a oportunidade de divulgar seu diferencial e de se consolidar junto ao seu público.

Tudo isso é novo e todos nós estamos aprendendo, esta é a grande verdade. Desconfie daquele que chegar dizendo ser o expert no assunto e que vai fazer sua página “bombar”. Trabalhar com B2B é bem diferente que B2C. Falar (e conquistar) a confiança de profissionais da indústria é diferente de falar com jovens que estão conectados por motivos lúdicos.

Trabalhar com redes sociais digitais não é a mesma coisa que conhecer redes de computadores e programas. É necessário o conhecimento de estratégias de comunicação e das características e especificidades do segmento em que a organização está inserida. Então, o recado que fica é: cuide bem da apresentação de sua empresa na web. Seja um líder zeloso. Portanto, ocupe-se o quanto puder acompanhando o que está sendo feito por sua equipe ou por terceiros.

Wagner Aneas
Wagner Aneas
Professor, pesquisador e empresário, com pós em Ciências Sociais. É diretor da W.ANnex Consultoria e Representações. Membro do Conselho Editorial da Revista Metalurgia & Materiais, da ABM, e membro da Comissão Organizadora do Moldes ABM. É consultor da Câmara Setorial de Ferramentarias e Modelações - CSFM, da ABIMAQ. Atuou recentemente em projeto de inovação e tecnologia industrial como pesquisador bolsista do CNPq, no IPDMAQ

1 Comentário

  1. Luiz Roberto Hirschheimer disse:

    Excelente artigo. Descreve com precisão que, para vender, é preciso mostrar competência e compromisso com resultados.

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