Uma síntese da história da pesquisa industrial na siderurgia brasileira

Uma síntese da história da pesquisa industrial na siderurgia brasileira

A partir do século XVI, a Revolução Filosófica estabeleceu uma etapa definitiva para descerrar as cortinas que ainda ofuscavam o conhecimento da verdade. Estes primeiros passos abriram o caminho para logo estabelecer as raízes primárias da Revolução Científica e, em particular, o assunto que nos interessa: a discussão do papel da física e da química.

Com o conhecimento destas ciências, e outras, nasceria a Revolução Industrial, cujo braço forte seria a PI (Pesquisa Industrial). Com este passo à frente, laboratórios de PI estão, hoje, atuando em todas as áreas tecnológicas e, em particular, na siderurgia brasileira.

Com uma lente de aumento poderosa, podemos fixar nossa atenção em uma das artes do conhecimento, das mais importantes que surgiram, como acima já foi dito, em função da PI, durante a Revolução Industrial. Isso ocorreu quando Henry Bessemer obteve, em 1855, a patente para a produção de aço em seu “Convertedor Bessemer”.

Operávamos na ACESITA (Companhia Aços Especiais Itabira) um equipamento “moderno” tal como este Convertedor Bessemer, o qual estava em serviço na sua usina desde a década de 40.

Nosso alto forno de 200 mt/dia de gusa usava carvão vegetal para a redução do minério de ferro. O ideal para a fabricação de aços especiais.

A combinação do aço soprado e a finalização do processo em fornos elétricos de 7 e 30m já haviam conseguido uma grande escala de produção de chapas de aço silício. Estas, ao passar pelo forno Newiges, seriam transformadas em chapas de grão orientado, o que mudou bastante o quadro de produção de artefatos elétricos no país.

Com uma vasta gama de especificações de aços especiais, o mercado nacional passou a usar outros tipos de aços especiais, destacando-se as primeiras aplicações do inox.

Estes foram bom ventos, e assim, naturalmente, isso trouxe esta prática – a PI – para nosso país, ao nível da PI exercida no exterior.

Uma dissertação de mestrado [1] sobre esta fase pode ser consultada nos arquivos desta revista, dessa forma ganhamos mais espaço para discutir o que hoje se passa no setor.

Foi dado início então à fabricação de chapas, pela CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), fundada pelo Presidente Vargas, que designou Macedo Soares para dirigir o projeto. Iniciam-se, então, suas operações em 1946.

Como primeira produtora integrada de aços planos no Brasil, a CSN é um marco no processo brasileiro de industrialização. Após a década de 50 do século passado, com a movimentação do governo em face do salto da industrialização no “pós-guerra”, ficou bem claro o fato de que as preocupações do governo estavam voltadas para o plano de montagem do setor automobilístico, além também da indústria de construção naval e demais utilizadores de chapas.

Obviamente, esta realidade global deu lugar em primeira instância a várias instalações de usinas fabricantes de aços planos, como a USIMINAS (Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais S. A.), CST (Companhia Siderúrgica de Tubarão) e COSIPA (Companhia Siderúrgica Paulista). A jusante nasceu a produção de aços especiais, em grande parte para peças a serem consumidas pela indústria automobilística. Fechando este quadro cresceu em paralelo outra área de consumo de aço, formada por uma miríade de produtores e consumidores de vergalhão.

Indo ao ponto, visando principalmente atender à indústria automobilística, esta área expressivamente diversificada, com algumas centenas de empresas, deve e pode, programaticamente, ser estudada com naturalidade e objetividade, hoje representada com muita profundidade por sua conhecida e dinâmica associação. Já é conhecido o fato de que muitos trabalhos técnicos das empresas deste setor estão sendo publicados na Revista IH, cada vez mais atestando esta faceta de atividades na área da PI, o que fica apontado para ser abordado em uma próxima coluna.

 

Nada Vem do Nada

Sem a Pesquisa Industrial não teríamos obtido algum sucesso, nem de longe, neste longo período acima ressaltado, e isso foi minuciosamente estudado na dissertação acima apontada. A fundação da POLI (Escola Politécnica) em São Paulo, em 1893, pelo grande educador Paulo Souza, foi dotada de um Gabinete de Materiais, por ele mesmo, pois como seu fundador criou a frase “Aulas pela manhã, laboratórios à tarde”. Desligando-se da POLI em 1899, o Gabinete mais tarde foi a semente do IPT, criado por Ary Torres, em 1934.

Este episódio do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) e suas raízes foi muito importante. Seu antigo laboratório já estava equipado com uma bancada metalográfica, instalada em 1907. Seus técnicos realizavam todos os estudos metalográficos necessários, uma réplica de comportamento semelhante ao que existia a serviço das indústrias siderúrgicas estrangeiras.

Assim foi que, há mais de um século, surgiu a Pesquisa Industrial no país, lembrando ainda que a criação da Belgo Mineira, fundada em 1921, subsidiária da ARBED (Siderurgias Reunidas de Burbach-Eich-Dudelange, do francês Aciéries Réunies de Burbach-Eich-Dudelange) luxemburguesa, trouxe consigo “experts” nesta área.

A pedido, o autor enviará aos interessados cópia em pdf da dissertação acima apontada, para que se divulguem estas raízes da PI na siderurgia brasileira e que se dê nome aos centros de pesquisas criados, com sua atividade pioneira, pelas usinas siderúrgicas, desde a década de 70. Para fechar este círculo de informação no Brasil, uma tese de doutorado está a caminho, na UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), para consignar a História da PI, implementada pelo nosso setor siderúrgico, ou seja, as suas usinas, fábricas e universidades que atuam na área, de 1950 até hoje.

O Presente

Já não se pode mais dizer que isso seja uma surpresa, mas de qualquer forma os fatos ficam cada vez mais visíveis e seus resultados crescem em importância. Refiro-me aos colegas que a cada ano estão agindo na maratona do aumento do conhecimento nas áreas de metalurgia, materiais e mineração, e estes setores, com isso, vêm alcançando níveis de desempenho de grande valor.

A ponta do iceberg foi o 68º Congresso da ABM Internacional, realizado em Belo Horizonte, de 30 de julho a 02 de agosto de 2013. Durante o encontro pudemos observar um variado conteúdo nos trabalhos técnicos, aliás, mais do que 500 apresentações. Além disso, alguns painéis tiveram seu lugar garantido e foram muito movimentados. Tudo somado, graças aos debatedores, que foram muito felizes com suas colocações e, portanto, temos muita lição de casa pela frente.

 

Este Iceberg Tecnológico Está Crescendo Como Nunca na Siderurgia Brasileira

Extraordinário mesmo foi o número de inscritos no Congresso da ABM, que aliás nunca deixaram de ser crescentes. Desta feita se somaram mais do que 800 congressistas, com uma novidade muito feliz, qual seja, pela enésima vez houve uma presença maciça de estudantes das mais diversificadas universidades – em torno de 350 – , os quais brilharam numa seção de pôsteres, editados por estes estudantes, com grande objetividade, por seus brilhantes professores e orientadores.

Acumulado durante anos, este imenso repositório de conhecimento encontra-se disponível na internet.

As visitas técnicas não ficaram por menos, optei então por uma visita ao especialíssimo Centro Técnico da Vale, localizado no antigo local onde funcionava o Miguelão, Centro Técnico da CAEMI (Caemi Mineração e Metalurgia S.A.), a poucos quilômetros de Belo Horizonte, quando trabalhei na mesma na década de 80, pois estávamos conquistando o fornecimento de minério de ferro para a China.

Somado a isso tudo, que já tem contornos de grande profundidade, é digno de nota também que vínhamos de um encontro recente da ABM (Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração) em Araxá, MG, com visitas às instalações de um moderníssimo Centro de Pesquisas da CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração), onde a presença marcante de uma numerosa delegação chinesa chamou nossa atenção.

É desnecessário dizer que estávamos todos interessados em aprofundar nossos conhecimentos sobre o uso do aço nióbio.

Inserindo então o valor da PI realizada pelas fornecedoras de peças e pelas montadoras, isso em parte já está presente neste iceberg, com o exemplo da Revista IH, chamando a atenção de todos pelos trabalhos que têm alimentado o crescimento e os desafios impostos a uma miríade de empresas voltadas para o avanço de um setor gigantesco, o setor automobilístico.

Parcerias inusitadas estão se formando entre universidades, empresas siderúrgicas e montadoras. As empresas de aços especiais estão neste caso e sua interação com os setores de autopeças está buscando avançar com atenção crescente nas exigências do mercado.

É impossível também ignorar o crescimento das linhas de produção de equipamentos, principalmente fornos de tratamento térmico, atuando neste gigantesco cenário.

Isso está claro como nunca, vamos ampliar com mais informação as atividades deste setor, ao folhear a IH, com a PI que tem sido o baluarte de todo este crescimento.

Referências


[1] UFRJ – Fred Woods de Lacerda, M. Sci. ”A evolução da fabricação do ferro no Brasil, desde 1550, e a importância da PI Pesquisa Industrial para a produção do aço, após 1922.”

 

Fred Woods de Lacerda
Fred Woods de Lacerda
Formado em Engenharia Civil pela UFPR - Universidade Federal do Paraná. Tem grande experiência na área siderúrgica, com passagens na então Acesita e CAEMI, entre outras. Gerenciou fábricas de refratários na instalação e posterior produção no Brasil. De 1973 a 1982 foi secretário geral do IBS - Instituto Brasileiro de Siderurgia, hoje Instituto Aço Brasil. Nesta função acumulou o cargo de secretário regional do ILAFA, Instituto Latino Americano del Fierro y Acero

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